… só poderia ser um diálogo entre amigos…
Na Quarta-Feira passada, no fim da tarde, percorri a ER255 em direcção ao Algarve na companhia de um amigo de um outro país. É uma via sofrível com uma paisagem rural meio fantasma, só interrompida pela passagem de algumas aldeias.
Habituado a cobrir grandes eventos desportivos em grandes zonas urbanas, o meu amigo está espantado com o que vê:
- É sempre assim, não se vêem pessoas?
- Assim, como?
- Deserto, magnífico, sem pessoas?
- É, é quase sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, em que sempre se vê mais gente.
- Mas, onde estão as pessoas? Até nas aldeias não se vê viva alma!
- Estão nas cidades ou emigraram, pois aqui não há emprego.
-Mas, vi umas piscinas, um “centro cultural”, um descampado a que chamam parque de feiras e exposições, e um novo campo de futebol em construção, e mais umas obras, tipo arranjo urbanístico que tanto poderiam ser aqui como na Covilhã ou Guarda…Porque se está a fazer tudo isto se não há gente para utilizar em pleno?
- Porque há dinheiro dos Fundos Europeus para gastar e porque a Câmara considera que o desenvolvimento é isto.
- E têm mais equipamentos destes nas outras aldeias por onde passámos e no resto da região?
- É assim em toda a parte. Nas sedes de concelho e de freguesia fazem-se pequenos arranjos de jardins com casas de banho públicas, delegações das juntas para funcionarem um dia por semana, reabilitação de praças de touros e polidesportivos para os reformados, obras que sempre dão para um dia diferente nas respectivas inaugurações.
-O quê? Fazem inaugurações tipo corta fitas a casas de banho públicas?
- Sim, com a banda, discurso do Sr. Presidente da Câmara, e algumas vezes até com a presença de membros do governo, da região e do País, mas essencialmente com muitas minis de oferta ao “Povo”. – Respondi, rindo-me.
- E, já agora, o Alqueva? Não era para trazer gente, complexos – turísticos, agricultura?
- Sim, e no Baixo Alentejo, a paisagem mudou. Onde há 10 anos quando em viagem para o Algarve atravessávamos o deserto, hoje vês regadios super – intensivos e vinha, e nota-se alguma dinâmica económica, contudo são quase todos agricultores espanhóis…
- E porque são quase todos espanhóis?
- Porque compraram a terra ao dobro do preço que valia para os Portugueses, e para estragar a terra, destruir azinhais e reconverter também o que a campanha do trigo estragou.
- E aqui não há agricultores?
- Não: a Europa paga-nos para não os ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável, os poucos que ficaram são autênticos…
- Autênticos???
- Sim, e passam mais tempo a tratar de papelada do que a produzir, é o simplex…
- E o Turismo?
- No inicio do enchimento da Barragem, apareceram todos os grandes investidores da “praça”, os do costume… com mega projectos, que se denominaram UT’s, para converter estevas e chaparros em índices urbanísticos, se tudo fosse feito duplicávamos a população do Alentejo.
Ele ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas e o Estado e as entidades que regulam o ordenamento?
- O Estado no início incentivou, distribuiu algum, para apoiar através de empresas estatais, com as câmaras na administração, naturalmente a quererem tirar dividendos do manancial de construção que lhes prometiam. Contudo todos se esqueceram que existem planos de ordenamento e de gestão do território a transformar que dependem não só das câmaras mas principalmente de entidades da administração central.
- Quais?
- CCDR´s, ambiente, turismo, etc.… um manancial de capelinhas, que têm sempre uma palavra a dizer… A introdução a posteriori de instrumentos regionais e especiais de ordenamento, como o PROZEA – (Plano Regional de Ordenamento da Zona Envolvente ao Alqueva) e POAAP – (Plano de Ordenamento de Albufeiras de Alqueva e Pedrógão), não significaram a desejável articulação de estratégias regionais. De facto não existe um planeamento regional concertado em Portugal, no sentido de propor um projecto integrado e coerente de desenvolvimento da região ao poder central. Neste contexto é o Estado que determina o que a região é ou não é, não tendo as regiões e as suas estruturas de planeamento mais do que uma mera função estudiosa das realidades e problemas locais, sem grandes ambições de aplicação do conhecimento privilegiado das realidades para onde se planeia.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: 90% dos projectos são de um modelo que já se sabe que só serve para caucionar outros negócios, ou seja transformar solo rústico em urbano quando se sabe que não é rentável construir os empreendimentos, mas se estiver escrito o que nele se pode fazer, esse solo rústico vale 5 vezes mais. Mas na prática passam anos e anos e …nada!
- Então a alternativa é abandonar a envolvente ao Alqueva, não fazer nada? Transformar uma paisagem humanizada de um lago artificial, num falso santuário natural, deixar as populações sem hipótese de subsistência económica?
- Não, a alternativa é apostar na sustentabilidade de empreendimentos de média dimensão, reforçar as vilas e aldeias com equipamentos lúdicos, sociais, (sempre que exista massa humana para os utilizar) e vender o riquíssimo património arquitectónico e etnográfico.
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério. Preferes uma verdadeira casa de campo num núcleo medieval com condições e qualidade de oferta, com vida social e cultural ou queres uma cópia de um resort caribenho sem a água das Caraíbas, igual a outro no sul de Espanha ou na Turquia?
-A primeira opção, mas obviamente é preciso estruturar todos esses núcleos urbanos existentes…
-Obviamente, é necessária uma estratégia política concertada entre agentes públicos e privados que é a única via de concretização, em benefício daqueles que ali habitam, Património Nacional, e dos investidores privados, salvaguardando-se portanto a coisa pública.
- E como?
- Aproveitando as potencialidades como um pólo dinamizador da actividade económica, dando origem a novos empregos (ou a pluriactividade) em domínios tão diversos como equipamentos hoteleiros (de qualidade e de pequena escala); restaurantes (exclusivamente no segmento de elevada qualidade); exploração de equipamento de apoio, de restauração e recreio junto da barragem; organização de provas desportivas (pesca, caça); organização de circuitos turísticos e desenvolvimento dos serviços.
- E isso chega?
- Não, estou em crer que o desenvolvimento do Alentejo e da envolvente de Alqueva deverá passar por factores como: a promoção do seu Património Arquitectónico, Monumental, erudito e vernáculo; o Valor Paisagístico e ambiental e a criação de infra-estruturas que apoiem e promovam a sustentabilidade de investimentos, sem isto estamos a criar um deserto lindo entre a Ruta de La Plata e o IP2, sem gente…
Ele ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, as câmaras fazem alguma coisa?
- Não, mas deviam. Aos municípios devia pertencer em primeira linha a iniciativa de urbanizar, produzindo solo urbanizado para os vários tipos de procura, de acordo com as necessidades, a preços e condições que possam ser competitivos em relação aos praticados pela iniciativa privada. Mas não têm coragem, chateia os amigos que acham que têm uma mina de ouro para os netos…
-Ele ficou pensativo outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-lo: – E, desculpa lá, assim haveria gente mas a estrada está deserta, atravessa o Alto e Baixo Alentejo e quase não se vê gente!
- Com uma política de solos em prática evitam-se as actividades especulativas e garante-se o ordenamento do território. Os municípios assumindo essa tarefa e prescindindo de um lucro considerável, entrariam portanto, em competição com os promotores de terrenos para construção, adoptando parte da sua lógica de actuação, mas introduzindo dois elementos fulcrais como a ausência de objectivos de lucro e a preocupação relativamente à qualidade de vida dos habitantes locais,
- Não seria uma ruína?
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que realmente têm sustentabilidade existe a sua área de negócio, trabalham noutro nicho, mas não rentabilizam o seu negócio sem esta componente acessória, sozinhos é mais complicado.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada… Olha ali ao fundo, vês?
- Extraordinário!
- A barragem de Alqueva, a maior da Europa.
-Ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha, e sabes que mais? Surgiu um novo factor de “desenvolvimento”: uma refinaria!
- Como????
- Sim, ali perto do início do Alqueva, alguns dos nossos estimados vizinhos de Comunidade Europeia, de Estado contíguo e dessa nova figura a “Euro -Região”, resolveram beneficiar-nos com a instalação desse ícone do desenvolvimento, uma unidade petroquímica localizada a cerca de 50 quilómetros da fronteira portuguesa e bem no interior da bacia do Guadiana.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e ainda não serve para nada, e ainda por cima vai ser uma mega – etar petroquímica?
- Sim, vai servir para não fazer quase nada, que é o que nós fazemos mais e melhor.
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos?
Rui Rodrigues – Arquitecto


