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Transtagano vs Vianense

Junho 14, 2010

No dia 1 de Maio de 1929 teve início, em Viana do Alentejo, a publicação de um jornal local, o “Transtagano”, dirigido por algumas pessoas ligadas à ideia da República. Apesar da aspereza do tempo que então se vivia e das mais variadas adversidades o jornal lá foi saindo com uma periodicidade quinzenal, mais ou menos cumprida, pois fazer um jornal naquela altura era muito, muito difícil e dispendioso. O meio era pobre, os anunciantes rareavam, não havia subsídios e os assinantes, poucos, nem sempre pagavam a assinatura. Mas ainda assim o jornal conseguia sair, uma pedra no charco no panorama cultural da Viana de então.

Por essa mesma altura a Sociedade Vianense era o centro da vida social da vila. Era nela que funcionava o cinema, ainda mudo, numa pequena sala de espectáculos que imitava, em ponto pequeno, o Teatro Garcia de Resende de Évora. De vez em quando lá havia um baile, mas os espectáculos mais apreciados eram as operetas e as récitas de beneficência, normalmente em proveito da “creche” ou da “caixa escolar”.

O “Transtagano”, como jornal local que era, costumava publicitar os espectáculos da Sociedade Vianense e, depois destes acontecerem, publicar bondosas críticas aos mesmos.

Um dia, corria já o ano de 1930, surgiu na vila o “Grupo de Amadores de Viana”, dirigido por um professor primário de nome Flor. Propunha-se esta nova agremiação organizar, também ela, uma récita de final de ano lectivo. E se bem o pensou, melhor o fez. Só que, contra o que já era habitual, esqueceram-se (ou não quiseram, vá-se lá hoje saber…) de convidar o representante do “Transtagano” a assistir à representação. Despeitado, o jornal divulgou no seu número 26, de 8 de Junho desse ano, uma critica pouco favorável ao espectáculo. O rastilho estava aceso! A partir daí gerou-se uma polémica intensa, uma “troca de galhardetes” que envolveu praticamente toda a nossa comunidade e que, por mais de uma vez, ia mesmo chegando a vias de facto. Como o “Transtagano” era uma das partes do conflito só publicava, como é óbvio, as suas razões e a sua perspectiva da contenda. A resposta do “Grupo de Amadores de Viana” não se fez esperar: ainda em Junho começam a publicar o seu próprio jornal, o “Vianense”, uma publicação cujo propósito evidente era o de afrontar e invectivar o “Transtagano”.

O fim desta discórdia é fácil de adivinhar: vila pobre, com elevada taxa de analfabetismo, difícil era aguentar a edição de um jornal, quanto mais de dois. Passados três singelos números expirava o “Vianense” e um ano e pouco após o seu nascimento morria, também, o “Transtagano”.

Entretanto, lá longe, em Lisboa, um professor universitário, vindo de Coimbra, havia dois anos que se vinha afirmando como a “única” solução para um país perturbado. Lenta mas decisivamente, a ditadura e o totalitarismo iam tomando conta da vida dos nossos avós. Hoje sabe-se que a ausência de jornais locais também ajudou, e muito, a que a ideia de Estado Novo se tivesse imposto aos portugueses com tanta facilidade.

F.B.

Recebido em peixebanana@sapo.pt

23 comentários leave one →
  1. Leitor permalink
    Junho 15, 2010 08:47

    Já alguém tentou reavivar “O transtagano” aqui há uns anitos atrás, e por acaso até estava bom mas foi de pouca duração. Era giro haver um jornal da nossa terra, pensem nisso.

  2. Anónimo permalink
    Junho 15, 2010 12:10

    Afinal parece que não aprendemos nada com os nossos erros, a história repete-se, o eu sempre à frente do nós.

  3. Anónimo permalink
    Junho 16, 2010 11:03

    Interessante este post de FB (será que é quem eu penso que seja?), uma subtil alusão à guerra que está a consumir as duas agremiações dançantes de Viana, os recursos da Autarquia (que é quem tudo subsidia…), e a nossa paciência. Uma luta que é um verdadeiro retrato do estado de degradação social e cultural a que chegou esta vila e do seu baixíssimo nível de civilidade. Para este estado de coisas contribuiu muito a acção do anterior executivo camarário, interessado em promover um suposto “associativismo” selectivo, motor de promoção social (e logo também de diferenciação), instrumento de obtenção de poder político e pessoal para quem o controlava.

    Acho curioso que precisamente 80 anos depois do caso dos jornais não tenhamos aprendido nada, que tudo esteja na mesma. O que nos diferencia dos nossos avós é apenas o facto de termos dois automóveis poluentes à porta de casa e três ou quatro televisores lá dentro, mais nada. Continuamos imbecis, incultos, confundidos e convencidos. Haa, ia-me esquecendo, e muito mais endividados que há 80 anos atrás.

    Já era tempo da nova Câmara dar alguns sinais de lucidez política e acabar com os apoios a este regabofe. Podem estar certos que o povo agradecia. Afinal estão em causa os parcos recursos que deviam ser gastos no bem-estar de TODOS, e que acabam por ser delapidados apenas em (mau) proveito de ALGUNS.

    • Atento permalink
      Junho 16, 2010 13:51

      Interessante o seu comentário, mas está um pouco confundido com as coisas, quando diz que os gastos do erário publico devem ser em proveito de todos e não apenas de alguns.
      Isso até se pode aplicar a algumas associações “fantasma” que existem no concelho, mas aplicar isso a 2 associações que tem no seu seio mais de 150 crianças a praticar dança e que certamente representam uma larga maioria da população (salvo erro a população de Viana tem pouco mais de 3000 habitantes) o que representa em percentagem em termos de familias a quase totalidade dos habitantes, vem o senhor dar uma de moralidade e defender o fim dos subsidios para estas crianças todas? será preferível aplicar as poucas verbas noutro tipo de eventos dos quais voçê seja adepto? diga-me quais e dir-lhe-ei quem voçê é e o que representa na Sociedade Vianense e qual o seu contributo para a mesma!

  4. ja ca tardava permalink
    Junho 16, 2010 11:18

    A pouco e pouco vão chegando ao que querem, por a pata em cima das associações.
    Com textos fabricados e comentários a pedido de várias familias.
    Com os mesmos por detrás de algumas associações a denegrirem o seu trabalho e a criarem o tempero necessário.
    Com a afirmação no comentario anterior que ” o povo agradecia”, dentro de pouco tempo a Câmara será “obrigada” a cortar nos apoios que entrega as associações, em defesa da moral e dos bons costumes.
    A ver vamos…

    • Anónimo permalink
      Junho 16, 2010 13:33

      Dentro em pouco a Câmara vai ser obrigada a fazer qualquer coisa, sem dúvida – está mandatada para isso por um confortável resultado eleitoral que exprime um inequívoco desejo que a população tem de mudança . A situação actual é, há muito, absolutamente insustentável. Grupos estanques, com duas ou três pessoas, muitos dos quais que só existem para sacar o subsídio anual não trazendo mais valia nenhuma para o concelho.
      Grupos que se limitam a sugar os nossos poucos recursos, não são associações são quanto muito grupos de amigos e esses não precisam de ser financiados pelo erário público. Não gostam, não comam!
      Finalmente, desonestidade é dizer que o texto foi fabricado, insinuando que é mentira, quando, conforme se demonstra, existem documentos históricos que provam a sua veracidade. Pena que quem o escreve, para além de fel, não fabrique mais nada.

  5. Anónimo permalink
    Junho 16, 2010 15:51

    Diga quem são as pessoas e os grupos, se o não fizer está apenas a disparar para o vazio.
    O autor do comentario anterior, parece muito seguro do caminho que ai vem, quem sabe até talvez seja um dos mentores.

    • Anónimo permalink
      Junho 16, 2010 16:11

      Garanto-lhe que não sou um dos ditos mentores. Como tantos outros trabalho fora da ilha mas vou ao café, à loja, falo com as pessoas, leio as actas da vereação e mais uns etecetras, resumindo interesso-me pela terra onde desde sempre vivo. O meu comentário reflecte essa mesma vivência, acredite não são tiros para o vazio.
      O autor do comentário anterior.

      • Atento permalink
        Junho 16, 2010 16:22

        ” Interessante o seu comentário, mas está um pouco confundido com as coisas, quando diz que os gastos do erário publico devem ser em proveito de todos e não apenas de alguns.
        Isso até se pode aplicar a algumas associações “fantasma” que existem no concelho, mas aplicar isso a 2 associações que tem no seu seio mais de 150 crianças a praticar dança e que certamente representam uma larga maioria da população (salvo erro a população de Viana tem pouco mais de 3000 habitantes) o que representa em percentagem em termos de familias a quase totalidade dos habitantes, vem o senhor dar uma de moralidade e defender o fim dos subsidios para estas crianças todas? será preferível aplicar as poucas verbas noutro tipo de eventos dos quais voçê seja adepto? diga-me quais e dir-lhe-ei quem voçê é e o que representa na Sociedade Vianense e qual o seu contributo para a mesma!”

        Gostaria de ver um comentário seu em relação ao meu, respondendo nomedamente às questões que lá são colocadas, pois sendo uma pessoa que vive na terra e por ela se interessa, não deverá ficar indiferente a esta questão das 150 crianças, ou será que elas não fazem parte da “sua” terra?
        Deixe-se de retórica politica e esteja mais atento ao que o rodeia.
        Desporto e Cultura fazem parte do seu vocabulário? ou será que apenas conhece a palavra “regabofe” e “delapidar”?
        Para terminar, diga-me o que é para si “Bem estar”? será a idas ao “café” que voçê frequenta?

      • O Autor do Comentário Anterior permalink
        Junho 16, 2010 20:34

        Atento

        Não percebi muito bem se o seu comentário me é dirigido, vai-me desculpar mas sou um bocado lento de raciocínio e a quarta classe não ajuda. De qualquer forma, aqui vai.

        Atento, pelo menos começamos a chegar a algumas conclusões – há associações fantasma no concelho. Concordará que são obra da outra gerência e que esta, se o entender, tem toda a legitimidade de pôr fim a isso.

        Não tente pôr na minha boca coisas que eu não disse, claro que é muito meritório o trabalho desenvolvido com as tais 150 crianças, nunca disse o contrários. Agora se o que estivesse em causa fossem os reais interesses das crianças, certamente que não existiriam as peixeiradas a que temos assistido. É perfeitamente visível (todos conhecemos as histórias), há aqui muito de luta pelo protagonismo, muito egoísmo misturado com estupidez.

        “diga-me quais e dir-lhe-ei quem voçê é e o que representa na Sociedade Vianense e qual o seu contributo para a mesma” É realmente patético que o senhor, não sei se armado de um curso de psicologia ou de uma bola de crista, se arrogue da presunção de saber tudo sobre todos os mortais que por cá vivem. A ser verdade, você sim seria O Verdadeiro Tudólogo.

  6. Anónimo permalink
    Junho 16, 2010 18:27

    O grande timoneiro Pereira e os seus sequazes estão totalmente convencidos que as mil e uma associações do concelho, criadas durante o seu reinado, serão assim como uma espécie de conquista de Abril, qualquer coisa de excelente cuja existência jamais poderá ser posta em causa sem se pôr em causa, em simultâneo, o próprio regime democrático. Por mim apenas vejo nesta imbecil e interminável querela entre as meninas da dança o reflexo do que realmente são grande parte das nossas associações: ninhos de gente mal-formada, ressabiados disto ou daquilo, gente inculta armada ao pincarelho, procurando na maravilhosa vida associativa local o trampolim para as suas aspirações de ascensão social, económica e política. E é a gente desta que estão entregues as tais 150 criancinhas! Isto é o que de facto me preocupa. Não bastava já o sistema escolar ser o que é, um dos maiores falhanços do regime pós-25 de Abril, ainda por cima, nos tempos livres, entregamos os nossos chachopos a estas mulheres e homens, cujo perfil moral e cultural agora tão bem podemos traçar, através da qualidade dos seus vovouzelantes comentários ao longo de toda esta guerra blogosférica! Belos exemplos, não haja dúvidas…

    • Anónimo permalink
      Junho 16, 2010 21:12

      E tu se és assim tão culto, bem formado e com uma vida social acima de qualquer suspeita porque não dás a cara e mostra aquilo que vales, a começar por tomar conta das associações e das criancinhas? certamente que o povo agradecia e assim tinhas oportunidade de mostrar o teu talento, carácter irrepreensível e idoineidade moral.
      Davas um belo dirigente de qualquer coisa, com toda a capacidade que mostras aqui neste rectângulo, chamado de blogosfera, só podia ser um sucesso.
      Vá lá,faz-me a vontade e mostra as tuas capacidade e valores, vá lá!!!!!!!
      Eu voto em Ti.

  7. Anónimo permalink
    Junho 16, 2010 21:16

    o comentador das 20:34 continua a ñ responder ás ultimas questões colocadas por um tal de “atento”
    à pois é, ele só tem a 4 classe mas utiliza uma linguagem de “Dr.” Sim Senhor grande génio.

    • O Autor do Comentário Anterior permalink
      Junho 16, 2010 22:49

      Portanto pá, ficamos a saber que na sua excelsa mente, um individuo que só tenha a quarta classe tem forçosamente de ser uma besta quadrada. O comentador deve pertencer aquele grupo de pessoas que tiveram de fazer uma licenciaturazita para colmatar os seus problemas de afirmação pessoal. Poderia despejar aqui uma extensa lista de pessoas, autodidactas, que se distinguiram nas mais diversas áreas, e que não tinham formação académica alguma. Mas evidentemente que ficávamos na mesma, vivemos num país de senhores doutores, vestido de misérias e aparências, não é de admirar que pense assim.

      Mas já que lhe interessa tanto a minha opinião, de uma forma geral julgo que a maneira mais correcta seria de fazer uma atribuição de subsídios em função do:

      -Historial e trabalho efectivamente desenvolvido pelas associações.
      -Número de pessoas do concelho envolvidas nessas acções.
      -Impacto que essas acções tenham na formação dos jovens.
      -Impacto que essas acções tenham na melhoria da qualidade de vida dos idosos.

      No fundamental, financiava o trabalho e o mérito, nada de subsídios anuais cegos!

      Pronto, já lhe mostrei a minha, agora mostre lá vossa mercê a sua.

      • Anónimo permalink
        Junho 16, 2010 23:24

        a minha já a afirmei anteriormente ou será q ñ leu, ou se leu estava desatento.

  8. Anónimo permalink
    Junho 17, 2010 08:29

    Mas afinal qual ou quais são as associações fantasma? Nomes?

    • Anónimo permalink
      Junho 17, 2010 11:06

      Dá tu primeiro o teu “nome” e eu direi quais as fantasmas e tb com a minha identificação bem à mostra…
      Pois caso contrário, se continuares anónimo tb tu és um “fantasma” ou será q tens medo de dar a cara?

  9. Anónimo permalink
    Junho 17, 2010 16:06

    Eu não venho pra qui mandar bocas, apenas fiz uma pergunta para ver se podia ou não concordar contigo.
    Pela tua resposta, percebi, é só fumaça!

    • Aluna da Casa do Benfica permalink
      Junho 17, 2010 17:41

      Mas fazer perguntas ainda ñ é crime neste país por isso ñ deixei porque fizeste a pergunta sob o signo do anonimato? pelos vistos tb é só fumaça, pois ñ tás interessado em saber quem são, apenas vieste tb mandar uma boca, ou será q foi uma pergunta inocente de alguém q vai à igreja todos os dias confersar-se?

  10. Anónimo permalink
    Junho 18, 2010 10:09

    Olha, vai-te vuvuzelar!

  11. Anónimo permalink
    Junho 18, 2010 10:59

    Sou eu outra vez. Li a acta da Câmara e vi o que o Presidente disse sobre cortar apoios ao desporto e a cultura.
    Dou por encerrado este(dialogo).
    Já vi tudo e já percebi o que vão fazer. Matar uma serie de entidades e decidir quem deve viver ou não.
    Como DEUS.
    Abençoados sejam!
    Over and out!

    • Anónimo permalink
      Junho 18, 2010 11:09

      Tchau!

    • Anónimo permalink
      Junho 18, 2010 13:07

      A pergunta:

      “O senhor Vereador José Jacinto perguntou qual a reflexão que já foi feita pelos eleitos em
      regime de permanência acerca da situação econômica e financeira do País e dos seus impactos
      neste concelho.”

      A resposta:

      “Disse o senhor Presidente que atendendo à difícil situação econômica e financeira do País, com as inevitáveis repercussões nos Municípios, haverá que ajustar os nossos gastos às receitas que se recebem, no fundo ter-se-ão que ajustar comportamentos às disponibilidades que houver. A este propósito o senhor Presidente referiu a necessidade de rever os Regulamentos de Apoio Financeiro quer às modalidades desportivas quer às actividades culturais, mas sem quebrar as expectativas das Associações, ou seja, transmitindo-lhes antecipadamente as intenções de redução para que também elas possam adequar os seus comportamentos. O primeiro Regulamento a ser revisto será o do Desporto e posteriormente, a partir de Janeiro de 2011, o da Cultura.”

      Agora diga-me, com base nisto e depois de ter reconhecido que “algumas associações “fantasma” … existem no concelho”, como é que já sabe tudo o que o executivo vai fazer presumindo que, seja de que for, será sempre mal feito ? Outra vez a bola de cristal ou continua a ser só má fé?
      Não responda, não estou nem um bocadinho interessado na sua opinião!

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