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Transtagano vs Vianense

No dia 1 de Maio de 1929 teve início, em Viana do Alentejo, a publicação de um jornal local, o “Transtagano”, dirigido por algumas pessoas ligadas à ideia da República. Apesar da aspereza do tempo que então se vivia e das mais variadas adversidades o jornal lá foi saindo com uma periodicidade quinzenal, mais ou menos cumprida, pois fazer um jornal naquela altura era muito, muito difícil e dispendioso. O meio era pobre, os anunciantes rareavam, não havia subsídios e os assinantes, poucos, nem sempre pagavam a assinatura. Mas ainda assim o jornal conseguia sair, uma pedra no charco no panorama cultural da Viana de então.

Por essa mesma altura a Sociedade Vianense era o centro da vida social da vila. Era nela que funcionava o cinema, ainda mudo, numa pequena sala de espectáculos que imitava, em ponto pequeno, o Teatro Garcia de Resende de Évora. De vez em quando lá havia um baile, mas os espectáculos mais apreciados eram as operetas e as récitas de beneficência, normalmente em proveito da “creche” ou da “caixa escolar”.

O “Transtagano”, como jornal local que era, costumava publicitar os espectáculos da Sociedade Vianense e, depois destes acontecerem, publicar bondosas críticas aos mesmos.

Um dia, corria já o ano de 1930, surgiu na vila o “Grupo de Amadores de Viana”, dirigido por um professor primário de nome Flor. Propunha-se esta nova agremiação organizar, também ela, uma récita de final de ano lectivo. E se bem o pensou, melhor o fez. Só que, contra o que já era habitual, esqueceram-se (ou não quiseram, vá-se lá hoje saber…) de convidar o representante do “Transtagano” a assistir à representação. Despeitado, o jornal divulgou no seu número 26, de 8 de Junho desse ano, uma critica pouco favorável ao espectáculo. O rastilho estava aceso! A partir daí gerou-se uma polémica intensa, uma “troca de galhardetes” que envolveu praticamente toda a nossa comunidade e que, por mais de uma vez, ia mesmo chegando a vias de facto. Como o “Transtagano” era uma das partes do conflito só publicava, como é óbvio, as suas razões e a sua perspectiva da contenda. A resposta do “Grupo de Amadores de Viana” não se fez esperar: ainda em Junho começam a publicar o seu próprio jornal, o “Vianense”, uma publicação cujo propósito evidente era o de afrontar e invectivar o “Transtagano”.

O fim desta discórdia é fácil de adivinhar: vila pobre, com elevada taxa de analfabetismo, difícil era aguentar a edição de um jornal, quanto mais de dois. Passados três singelos números expirava o “Vianense” e um ano e pouco após o seu nascimento morria, também, o “Transtagano”.

Entretanto, lá longe, em Lisboa, um professor universitário, vindo de Coimbra, havia dois anos que se vinha afirmando como a “única” solução para um país perturbado. Lenta mas decisivamente, a ditadura e o totalitarismo iam tomando conta da vida dos nossos avós. Hoje sabe-se que a ausência de jornais locais também ajudou, e muito, a que a ideia de Estado Novo se tivesse imposto aos portugueses com tanta facilidade.

F.B.

Recebido em peixebanana@sapo.pt