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Parte do problema, não da solução

Março 18, 2011
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por Pedro Correia no Albergue Espanhol

 

1. O programa que Sócrates apresentou aos portugueses, nas legislativas de Setembro de 2009, não incluía nenhuma medida do vasto pacote de sacrifícios exigidos aos portugueses desde então. Não previa o aumento dos impostos. Nem a redução das prestações sociais. Nem o corte dos salários da função pública. Nem o congelamento das reformas. Nem a quebra do investimento público. Hoje é possível concluir, sem constrangimentos de qualquer espécie, que esse programa apresentado a sufrágio equivaleu a uma fraude eleitoral.

 

2. Há nove meses, quando o PSD – já com Pedro Passos Coelho na liderança – viabilizou o segundo PEC (que previa o aumento do IVA e do IRS, à revelia das promessas eleitorais socialistas), Sócrates assegurou: “Medidas adicionais só seriam necessárias se não estivéssemos a cumprir o objectivo orçamental. A verdade é que nós estamos a cumprir esse objectivo orçamental.” O primeiro-ministro faltou à verdade: depois disso, apesar de Sócrates garantir com insistência que a execução orçamental corria bem, foi aprovado mais um programa de austeridade e há agora outro anunciado pelo Governo à Comissão Europeia, como facto consumado, à revelia do Presidente da República, da Assembleia da República, dos parceiros sociais e do próprio Conselho de Ministros, o que põe em causa o regular funcionamento das instituições.

 

3. Como todas as sondagens indicam, é notória a vontade de mudança dos eleitores portugueses, como sucedeu com os britânicos em Maio de 2010 e com os irlandeses há poucas semanas. E como sucedeu entre nós em Outubro de 1985 e em Fevereiro de 2005, quando se registaram importantes alterações do ciclo político antes de se esgotar o prazo previsto para a normal conclusão da legislatura.

 

4. José Sócrates está no poder há 2195 dias. Tempo mais que suficiente para os portugueses terem percebido que ele é parte do problema, não é parte da solução. Este é um dado de reflexão essencial sobre a actual situação política. Direi mesmo: este é o dado essencial.

 

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  1. Março 18, 2011 19:11

    Geração à Rasca – A Nossa Culpa
    Um dia, isto tinha de acontecer.
    Existe uma geração à rasca?
    Existe mais do que uma! Certamente!
    Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa
    abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes
    as agruras da vida.
    Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar
    com frustrações.
    A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também
    estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
    Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância
    e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus
    jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
    Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a
    minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)
    vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós
    1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
    Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram
    nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles
    a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes
    deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de
    diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível
    cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as
    expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou
    presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
    Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o
    melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas
    vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não
    havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado
    com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
    Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, … A
    vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
    Foi então que os pais ficaram à rasca.
    Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem
    Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde
    não se entra à borla nem se consome fiado.
    Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar
    a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de
    aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a
    pais.
    São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e
    da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que
    os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade,
    nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
    São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter
    de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e
    que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm
    direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,
    porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem,
    querem o que já ninguém lhes pode dar!
    A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo
    menos duas décadas.
    Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
    Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por
    escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na
    proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que
    o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois
    correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade
    operacional.
    Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em
    sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso
    signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas
    competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
    Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por
    não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração
    que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que
    queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a
    diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que
    este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
    Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo
    como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as
    foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
    Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não
    lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
    Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
    Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de
    montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o
    desespero alheio.
    Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e
    inteligência nesta geração?
    Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
    Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no
    retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e
    nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como
    todos nós).
    Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados
    pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham
    bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados
    académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos
    que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e,
    oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a
    subir na vida.
    E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos
    nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares
    a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no
    que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida
    e indevidamente?!!!
    Novos e velhos, todos estamos à rasca.
    Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
    Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme
    convicção de que a culpa não é deles.
    A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem
    fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e
    a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
    Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
    Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
    Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de
    uma generalização injusta.
    Pode ser que nada/ninguém seja assim.

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