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a analogia perfeita

Junho 1, 2011
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Às vezes é nas alturas mais insólitas que nos surge a analogia perfeita.

Ontem numa pausa para o lanche aproveitei para ir ver a exposição de Marcel Duchamp que está no centro de exposições da Fundação Eugénio d’Almeida, em Évora. Para quem não conhece, um dos precursores do movimento dadaísta, é uma mostra de alguns objectos que se não conhecermos ao que vamos, nos levanta alguma incompreensão e estranheza.

A arte de negar a arte.

Este movimento baseado no poema aleatório e no “ready made” despe o sentido artístico da arte como era entendida até aí. Foi antes de mais um sinal dos tempos, a guerra estava à porta e havia que contestar com a contradição, o absurdo e a oposição a qualquer tipo de equilíbrio.

Foram tempos loucos na concepção artística, na estética e no grafismo, o dadaísmo é antes de mais uma reflexão, um poema, uma dissertação, uma afronta.

Tristan Tzara (“a poesia faz-se na boca”), o poeta dadaísta chegou ao ponto de criar uma receita para fazer um poema dadaísta:

  • Pegue num jornal.
  • Pegue numa tesoura.
  • Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar ao seu poema.
  • Recorte o artigo.
  • Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
  • Agite suavemente.
  • Tire em seguida cada pedaço, um após o outro.
  • Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
  • O poema se parecerá com você.
  • E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público

Por sua vez Marcel Duchamp, o inventor da roda no mundo artístico, propõe-nos o “ready made”, ao retirar um objecto comum de seu contexto usual e elevá-lo à categoria de arte, ele anunciava ao mundo que a habilidade manual do artista já não basta para definir uma obra. A ideia por detrás do acto provocatório torna-se o mais importante. No fim da exposição podemos ver o urinol, ou “le fountain” como foi apelidado por Duchamp, uma peça vinda directamente de um armazém de construção civil assinada pelo pseudónimo de Duchamp e colocada directamente num espaço espositivo.

Esta questão levantada por Duchamp, levou-me a reflectir um pouco sobre a sua obra e sobre a arte em geral. Será que um objecto prefabricado se pode transformar num objecto artístico quando colocado fora do seu contexto?

Será que um atrasado mental quando colocado fora do manicómio se pode transformar no primeiro-ministro de um país democrático?

Sócrates não estará nunca para a política como Marcel Duchamp esteve para a arte, mas não deixará nunca de ser o urinol da política portuguesa. Fora do seu contexto, Impressionou, é verdade, mas foi só poesia aleatória. E sinceramente, dentro de um frasco, em formol faz melhor figura.

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