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MUNDO DE JONET

Novembro 8, 2012
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Na antologia do esquecimento

Camarada Van Zeller, as ciganas do meu bairro excitam-me. As novas e as velhas. Estas porque vestem saias compridas, geralmente negras, não vão à cabeleireira e levantam-se cedo para apanhar caracóis. As outras porque parecem putas, vestem-se como putas, entram e saem de carros suspeitos, tal qual putas. E as putas excitam-me. As ciganas do meu bairro vivem no mundo de Jonet, apesar de não lavarem os dentes. Suponho que não os lavem porque ou os não têm ou os têm estragados. A pasta de dentes está pela hora da morte, não oferecem detergentes para a boca na benfeitoria, só sopa de caracóis. É preciso poupar para ir ao bowling beber café, já que não dá para ir ao concerto de rock. As ciganas do meu bairro nem sequer gostam de rock, o mais rock que ouvem é o Tony Carreira na grafonola do Mercado de Santana. Se alguma vez foram a um concerto, foram puxadas pelos carros suspeitos. Talvez tenham dançado ao som dos Lords nas festas em honra de Nossa Senhora de Jonet, à freguesia do Auxílio. Olho para as ciganas do meu bairro, este bairro do mundo de Jonet, e imponho-me uma estóica reaprendizagem de ser pobre. Isto de reaprender a ser pobre tem muito que se lhe diga, porque só reaprende a ser pobre quem já o foi e deixou de ser. Quem nunca foi pobre pode não ter sequer que aprender a sê-lo, bastando-lhe sugerir aos que já o foram que voltem a sê-lo. Eu quero ser pobre, eu ambiciono ser pobre, eu desejo ser pobre, preciso que me ensinem a ser pobre. Eu venho-me de austeridade. Por isso me levanto bem cedo, antes de ir para o trabalho, e fico a olhar as ciganas do meu bairro. Masturbo-me a olhá-las – as velhas apanhando caracóis, as novas ganhando para o Nestum – e confesso que tenho vivido acima das minhas possibilidades. Nada devo a ninguém, felizmente, mas a verdade é que vivo acima das minhas possibilidades. Contribuo para o banco alimentar, distribuo cigarros pelos carochos, fumo e bebo e vou ao cinema e ao concerto de rock. Só não vou à missa largar tostão no cesto de verga, não quero exagerar nesta coisa do despesismo. Sou um consumista indefectível, tenho asma, respiro mais do que o necessário, do MEO prescindiria não fosse ter a viver comigo uma família idiota. A minha família é idiota, vive num mundo de Jonet. No mundo de Jonet nós vivemos de uma maneira completamente idiota. Nós somos nós, todos quantos lavam os dentes com a água da torneira a correr. Por exemplo, os idiotas dos filhos da Isabel. As ciganas do meu bairro não são idiotas porque não lavam os dentes, mas os filhos da Isabel são. Eles lavam os dentes. Esperemos que limpem a cera dos ouvidos. Aqueles que foram educados a lavar os dentes com água no copo também são idiotas, pois não souberam educar os seus filhos a fechar a torneira. É provável que esses mesmos filhos prefiram um concerto rock a fazer uma radiografia, o que não se lhes censura. Excepto se for um concerto de Rock in Rio. Há que fazer aqui uma lógica de contabilidade doméstica, há que ir aos concertos do Padre Borga. São mais baratos, poupamos no merchandising. No mundo de Jonet há pobres, mas não há miséria. Há muito Nestum. Três milhões de portugueses entopem os centros de ajuda e os abrigos, dormem na rua, não lavam os dentes, ouvem Padre Borga, beijam a mão caridosa da Isabel, estão robustos, rechonchudos, comem Nestum. É certo que muitos desempregados não vão encontrar uma oportunidade de trabalho porque continuam em casa dos pais a comer Nestum para poderem ir ao concerto de rock, pelo que devíamos de uma vez por todas acabar com os concertos de rock. Só missa e Padre Borga e Isabel no mundo de Jonet, porque dos indigentes será o reino do senhor. Cada um de nós tem de fazer o esforço de olhar para aquilo que vai perder como uma necessidade de voltar ao mais básico, e voltar ao mais básico é ser livre, é ser feliz, é poder dizer que nada se tem a perder porque, na realidade, nada se tem, excepto água no copo para lavar os dentes. E caracóis na erva. Que a sede mata-se por si enquanto Isabel puder cuspir nas nossas mãos.

 

4 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Novembro 11, 2012 18:56

    Tenho um amigo que me diz muita vez que ninguem gosta de ter a justiça á porta ,dito isto e desta maneira os portuguêses burgêses ficaram muito ofendidos porque alguêm com auturidade moral disse aquilo que nós tinhamos de ouvir. Concordo em absoluto com o que a senhora disse.

    • Novembro 11, 2012 19:04

      Eu felizmente também tenho amigos, pena não reconhecer qualquer autoridade moral à senhora JONET para dizer o que disse.

  2. tenho fome permalink
    Novembro 11, 2012 21:29

    Pois e só na concordo é com as gajas e gajos que andam a mamar das comidas do lar quase e a borla e na trabalham nem fazem népia, cantinas do social é mas é um deste tamanho todo e o que la manda é que dexa isso tudo proque andam por ai a esfumaçar-se e belos lanches e bicas e cervejas e depois vão lá ó lar para ir buscar o almoço e o jantari,mas as pessoas que la estao tem que pagar o mes todo e o 13 e 14 mes e esses gajos e gajas na dão uma pra caixa mas prontos eles na tem culpa deixam nos la ir i eles vao la pois.Mas axo que isso devera ser visto melhor proque agente todos presiçamos e na é esses que na fazem nada e andam a comer o que a gente adesconta da sigurança,e assim nunca mais vai aver dinhero nem para as reformas nem para oras coisa que faziam aqui falta na aguiar.se eles dao isso tudo na pra genti ter cá uma crechi para os nossos netinhos.

  3. Anónimo permalink
    Novembro 12, 2012 00:51

    Ó P.B. então quem tem autoridade moral para dizer o que tem de ser dito? Eu sei que a memória é a coisa mais curta que os homens teem mas acha que os chineses,indianos,brasileirose até timorenses devem pagar o nosso bem estar e todos os direitos adquiridos sem que esses mesmos direitos tenham suporte financeiro ou uma econemia que tenha pujança para os pagar. Solução chamou-se os que teem o dinheiro para continuarmos a viver da caridade, sim porque é disso que se trata . O triunviráto veio EMPRESTAR-NOS 78 mil milhões de euros ,quando já temos uma divida de 120% do produto interno bruto COMO AQUI CHEGAMOS?

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